Candidato a vereador, Kid Bengala promete abandonar a carreira pornô se for eleito
 O ator pornô Kid Bengala, de 54 anos, concorre como vereador em São Paulo |
Gustavo Martins
Da Redação
O nome Clóvis Basílio dos Santos pode não dizer muita coisa, mas seu apelido - Kid Bengala - já é uma marca conhecida na cinematografia pornô nacional. Assim batizado por um produtor carioca no início dos anos 90, por razões óbvias (33 centímetros de razões óbvias, segundo consta), o santista de 54 anos decidiu este ano candidatar-se a vereador pelo PPS na cidade de São Paulo.
Extremamente falante, Kid Bengala concilia atualmente sua campanha com os compromissos de ator, em uma rotina diária que "começa às 6h e não tem hora para acabar". Caso seja eleito, promete, além de lutar pelos direitos trabalhistas dos atores e atrizes do ramo, abandonar a carreira no pornô, que já rendeu filmes como "Reféns do Sexo", "Kid, O Fenômeno" e "Piranhas do Caribe".
Leia abaixo uma entrevista exclusiva com o candidato:
UOL - Há quanto tempo você se envolve com política?
Kid Bengala - Faz uns três anos, a vida de ator me levou a conhecer pessoas do meio político. Sou um cara pobre, e me revolta a situação da classe desprivilegiada. A maioria dos políticos é gente de classe média alta que não faz nada por esse pessoal. Eu não, eu vou a todos os lugares.
UOL - O que fez você decidir se candidatar a vereador?
Kid - Sou simpatizante dos evangélicos, freqüento a igreja do RR Soares. Eu fui pra igreja com início de depressão e me recuperei lá dentro. Um ano depois que entrei, me surgiu a idéia de entrar na política, até então eu nunca tinha pensado nisso na vida. Eu não cito o que eu faço lá, mas as pessoas me reconhecem, nunca teve nenhum preconceito quanto a isso. Se for eleito, eu encerro a minha carreira, é um compromisso que fiz com Deus.
UOL - Mas por que encerrar a carreira? Você vê algo errado em ser um ator pornô?
Kid - Não, eu não me envergonho de nada do que fiz, mas acho que tudo tem seu tempo. Eu já passei da idade, vou fazer 54 anos em novembro, não vou ficar até os 60 anos fazendo isso.
UOL - Quais são as bandeiras da sua campanha? Você tem alguma proposta específica para o pornô?
Kid - Meu alvo principal são os jovens, fazer mais colégios, oficinas de arte na periferia, computação, criar áreas de lazer. Quanto ao pornô, eu pretendo legalizar a classe dos atores, que hoje trabalham sem garantia nenhuma, sem INSS, seguro-saúde, nada. Paga-se muito mal no pornô nacional, o cara tem que sobreviver com o cachê, eu sou um dos poucos privilegiados que têm contrato, por exemplo. Aqui os empresários deitam e rolam, o mercado pornográfico só é bom para quem faz o filme. As estrelas mais conhecidas ganham, os que vieram da televisão, mas esses são a minoria da minoria. Quero lutar pelos atores, e também pelas meninas da noite, das boates, que fazem programa.
UOL - Você acha que pode ter dificuldades de dialogar com outros candidatos na Câmara por ser um ator pornô?
Kid - Não me preocupo com o preconceito dos outros vereadores, nós estamos numa democracia. Eu acompanho a política, adoro ver o "Jornal Nacional" da Globo, e poxa, não vai ser mais difícil do que o meu trabalho, eu dou conta do recado com 12 pessoas gravando, acho que consigo dialogar na câmara também.
 Clóvis Basílio, o Kid Bengala, pretende lançar um livro de memórias se for eleito |
UOL - Como você começou no pornô?
Kid - Eu fui convidado para fazer pornô, porque em setembro de 1989 tinha posado nu em uma revista chamada "Internacional". Um amigo meu conhecia o pessoal da revista, e todo mundo quer ser famoso, né? Aí eu fui lá e posei. Para você ver como são as coisas no Brasil, a menina que fez o ensaio comigo era noiva, usou o dinheiro para bancar o próprio casamento. Daí um produtor do Rio de Janeiro me viu e foi me procurar, e fui lá fazer meu primeiro filme, "Meus Amores do Rio". Foi esse cara que inventou o nome "Kid Bengala". No primeiro filme até que fui bem remunerado, mas depois o dinheiro começou a diminuir, fiz mais dois para aprender mesmo e parei, queria tentar fazer no exterior. Nessa época eu era metalúrgico, ganhava até que razoavelmente. Mas no fim das contas só voltei para o pornô na época do [
Alexandre] Frota, há três anos e meio, e recuperei o personagem. Por falar nisso, estou escrevendo as "Memória do Kid Bengala", um livro que só será lançado se eu for eleito (risos).
UOL - E você continua gravando?
Kid - Sim, assinei um contrato com uma nova produtora em fevereiro deste ano e lanço um filme por mês. Estou fazendo pornô com história agora, o que é ótimo, eu não agüentava mais cena em quarto de motel (risos). Eles têm uma série de paródias de filmes, já lancei "Piranhas do Caribe", "Kidzan", também uma versão de "O Homem da Máscara de Ferro" em um ferro-velho, com equipamento de solda e tudo... Fiz até uma versão de Elvis Presley, tive aulas de dança, toquei guitarra e cantei. Tem outros para sair ainda, "Kid, o Sheik", "Kidrácula", e estou terminando um como o imperador Nero agora, depois vou fazer um como Indiana Jones.
UOL - Você gostaria de seguir carreira como um ator "clássico"?
Kid - Estou descobrindo meu lado ator agora, sou eu que crio as falas em cima do roteiro. Eu pretendo parar no pornô, mas como ator clássico eu continuaria sim, havendo uma proposta. Não que o Kid esteja negando fogo não, aqui é como vinho, basta olhar meus filmes agora. E nem pretendo tirar meus filmes de circulação, até porque isso não seria possível. E eu não me envergonho, eu gosto de levar alegria para o povo.